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sábado, 23 de abril de 2011

FAROFA DE CEBOLA E ALHO

Aprendi esta receita em uma das minhas pescarias de amadora eterna aprendiz... É melhor comprar alho já descascado, pois a relação entre quem faz a farofa e o alho a ser manipulado é tenebrosa (detesto alho e não ter de descascá-lo pode ser uma alternativa feliz!). Para esta receita, o alho tem de ser cortado em tirinhas e a cebola em cubinhos. Não vale usar processador. Cortar um quilo de alho e um quilo de cebola, não é pra qualquer um, não!. Tudo bem pequenininho. Assim que acabei de picar os ingredientes e de chorar todas as lágrimas armazenadas desde o século passado (não adiantou ficar de óculos, nem por água na boca, nem usar máscara, nem sair de casa e cortar contra o vento... a fedentina se espalhou e entranhou na minha alma), tirei uma folga para exorcizar minhas mágoas e deitei-me na rede que fica na área externa, sob uma mangueira, procurando respirar o mais profundamente que pude, tentando afastar de mim a sensação de ter virado uma galinha temperada em vinha d’alho.... É preciso fazer este tipo de receita de vez em quando (uma vez a cada década, pelo menos, para funcionar como um depurativo espiritual... Mas não dá pra ter pensamentos puros depois de tais atividades... É nestes momentos que minha personalidade agradável tira uma folguinha... Cochilei e, graças aos meus anjos protetores, não retive sonhos (detesto lembrar-me de sonhos, acho uma perda de tempo!). Acordei pronta pra enfrentar a segunda etapa da empreitada. Não sou das que desistem! Numa panela, coloquei um copo (americano) de óleo de soja e cinco colheres (sopa) de margarina, pra esquentar bem, e despejei as tirinhas e os cubinhos, pra fritar. Acrescentei sal (uma colher de sopa, bem cheia) e uma colher (sopa) de açúcar. Quase queimou! É assim mesmo! Desliguei o fogo e despejei, mexendo bem, um quilo de farinha de mandioca torradinha. Pus a filha pra experimentar se ficou boa de sal. Só faço a receita, não provo. Aprendi a fazer esta receita com quem a inventou: a Oneida, lá de Minaçu, em Goiás. A danadinha serviu a farofa com pirarucu frito, arroz e purê de batatas. Comi até quase pedir padiola, como dizem os goianos. Sem nem sonhar que comia alho! Aí veio a pergunta do marido dela, pra mim: “você consegue identificar os ingredientes dessa farofa?” Eu já estava com a sensação de ter comido o peixe com escamas e espinhas, e arrependida de ter nascido, mas mantive-me displicente e tranquila, na superfície... “É de alho”, foi a resposta que ela mesma, em pessoa e sorridentemente deu. Nem de longe eu conseguiria adivinhar quem ou o quê fazia parte daquela iguaria... Pense numa criatura que quase morreu! Não na hora, no dia seguinte. Fiquei com a certeza - absoluta e certa - que tentaram matar-me, de maneira graciosa e gentil... Despedi-me deles, aparentando ter sobrevivido, mas passei mal durante todo o trajeto de uns seiscentos quilômetros até Brasília. No meu raciocínio embotado pelo mal estar, prostração corporal, pela dor de cabeça e pela dor queimando meu estômago, eu tinha certeza que minha vesícula estava paralisada e que meu estômago era uma fogueira filial do inferno. Não morri, óbvio! Mas passei bem perto... Minha alergia a alho deixa-me com dor de cabeça de três dias, no mínimo... A tal farofa é famosa por lá e não se tem notícia de nenhum defunto resultante da experiência de tê-la ingerido. Acho eu, olhando agora à distância, sob uma perspectiva empírica, que me faltou a sabedoria de ingerir, como antídoto, os líquidos à base de álcool tão comuns na cultura de apreciadores de pescarias... Constato que sou uma pescadora falsa: nem beber eu sei! Mas insisto em pescar...

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